NOSSA É A FOICE DE SATURNO E O MARTELO DE HEFESTO – PARTE I: Ontologia

Este texto surge da provocação que uma amiga fez em um grupo do Vortex a um certo tempo. Pretendo nesta série de textos chamados “Nossa é a Foice de Saturno e o Martelo de Hefesto” investigar a materialidade histórico-dialética que subjaz por detrás das metafísicas esotéricas. Neste primeiro textos tratarei dos problemas em definir-se em relação ao outro. Esta é provocação:

Segundo o livro que tô lendo bruxaria envolve vc conhecer as ervas, os elementais associados a cada uma delas, a influência da Lua e planetas sobre cada uma, runas e mantras. Mano, como tem gente que ainda fala que bruxa não estuda, vai só na intuição, ao contrário de magos!!!!”

Magia e Bruxaria existem materialmente no tempo e no espaço.

Para a Magia, em maíscula para dissociar termos e usos, há de se apropriar de uma Tradição, de um saber já consolidado, para um trabalho específico, partindo disto para realizar uma obra específica ainda que profundamente própria. Uma boa tradição esotérica dirá que tem um método específico, uma tática, para dividir com quem compartilha de uma mesma estratégia espiritual ou mágicka. Esta tática seria o domínio e entendimento do mundo em que o operador está, e suas múltiplas camadas para que num segundo momento, com isto instrumentalizado, funcione como ferramenta para uma próxima etapa de trabalho. E assim sucessivamente. Estas etapas precisam deste cubo, este altar, mesa de trabalho, construído a partir do domínio desta Tradição. Caso você pergunte para pessoas envolvidas nestas Tradições ouvirá algo que poderá te levar a ver Bruxaria como uma espécie de “magia natural” inspirada em Agrippa, Papus, vários neoplatônicos, etc. Isto não está “errado”, mas faz parecer que ao seguir este último caminho não haveria grandes diferenças do que um mago inserido num contexto hermético clássico faz.

Voltemos a provocação inicial. Quando se pensa em intuição versus instrução como provocado pela minha amiga, a coisa se revela: você pode aprender sobre magia destroçando o Liber 777 e a Clavícula de Salomão tendo toda uma carreira mágica só com isso. É uma tática possível. Agora, quando a gente pensa no impacto do que é o caminho reclamado para si como quem o de quem herda o sangue de Cain, ou dos anjos, das fadas, dragões, de uma linhagem familiar, o que seja. Algo que dê força e drama a sua narrativa. Seu status ontológico e consequentemente a esfera ontológica de sua magia passam a te atualizar como um ente separado do povaréu, dos comuns. A estratégia é outra. Uma encruzilhada de possibilidades se abre. São necessárias outras táticas. Até porque aí se diferenciam frontalmente bruxarias de neopaganismos. Neopaganismo fala de um caminho marcadamente ocidental, europeu, higienizado, intelectualizado e cristianizado. Boa parte da ideia de ‘pagão’ está associado a patrística cristã, sobretudo na Cidade de Deus de Santo Agostinho e nas relações feudais que passam a opor camponês e citadino. Marcam aqueles externos ao culto ao deus morto e crucificado. Radicalizando, definir-se como pagão é definir-se em relação ao outro. Existe um poder ontológico único em se definir não em relação ao outro, mas sim como sendo O Outro, o Grande Outro, o Adversário. Há algo notadamente gnóstico no sexo que os outros fazem. A tática mágicka e a da bruxaria são realmente próximas e podem gerar confusão, mas só se você não estiver consciente da estratégia maior que impõem estas táticas como sendo a de uma ciência de autodeterminar seu destino. Para quem não sabe o porque faz o que faz, para quem não se posiciona a partir de si não há encruzilhada, para perceber multiplicidade de caminhos é preciso ter a viagem em mente, ainda que nem sempre se saiba para onde se viaja. É aceitar-se como andarilho, um peregrino do sentido. E isto nos leva ao próximo ponto.

Bruxaria não é culto, é Ofício, é algo que se faz. Muito se fala da bruxaria como “o caminho da natureza”, mas pouco se fala como “o caminho de quem caminha com A Morte e O Diabo”. Assim como Magia, Bruxaria também tem Tradição. Tem História. Tem sangue e ossos, E elas se disputam. Pretendo escrever em breve sobre a materialidade histórica das relações infra e superestruturais das práticas históricas que convencionamos chamar de Bruxaria. Por hora, vamos nos deter sobre ontologia. Diversas Ordens Esotéricas tem em máxima conta este convencimento sobre sua narrativa acerca do que há de se fazer, o objetivo da ordem, e de onde emana o Conhecimento e o Poder para isso. Exemplificando por opostos: para a Sociedade das Ciências Antigas, marcadamente cristã e tradicional – martinista, se fizer sentido este dado – o bagulho é ser um bom menino e sentar no colo de Deus, para a Dragon Rouge é o contrário, é aprofundar a queda de Lúcifer. Rasteiro, eu sei, mas sei também que estou fazendo exatamente o que critiquei um parágrafo atrás: se tomarmos este exercício livre de imaginação em relação a Bruxaria veremos que Bruxa/e/os não são definidos em relação aos Magos e suas instruções, mas sim, em relação a sua História própria, a forma específica como tomam consciência não só de si, mas para si. Ao tornar-se Artificies do seu ser opera-se numa alquimia própria, reclama-se o seu ser a partir do corpo, vindo dai toda uma longa fila de homens mortos. Um jardim com um subsolo e um céu acima. Um mundo de histórias a descobrir, aventuras e caminhos.

E, bem importante, animado por estar-se atento aos sussurros externos que levam para dentro.

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